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ESG: UM NOVO DESAFIO PARA OS CFO

Autor: Francisco Matthews

Data: 08 de fevereiro 2021

Os 30 anos da minha vida profissional foram no mundo das finanças, primeiro como trader de derivativos no mercado de câmbio e depois, nos últimos 20 anos, como empreendedor na NetGO. Em ambos os campos, um dos pontos importantes para ser bem-sucedido foi a identificação antecipada das novas tendências emergentes, bem como a gestão adequada dos riscos inerentes ao setor empresarial.

A COVID-19 nos fez viver na pele o impacto decorrente das crises globais que chegam de forma tão inesperada. A partir disso, nós aprendemos valiosas lições sobre a mitigação de riscos, sendo uma das mais importantes, ao meu ver, que a variável ambiental é um fator relevante na matriz de riscos das empresas, com grandes implicações financeiras e operacionais. Eu sempre achei que as variáveis ESG estivessem em um âmbito diferente do financeiro, que elas coubessem apenas aos ativistas como Greta Thunberg e que fossem tratadas pelas gerências de sustentabilidade das empresas como forma de fazer um marketing verde, visto que estava na moda (greenwashing).

Minha opinião mudou após a COVID-19. Agora eu penso que os critérios ESG devem ser considerados como uma disciplina essencial na gestão de riscos  (ESG vem da sigla em inglês para “ambiental”, “social” e “governança” corporativa).

Embora os assuntos ambientais, sociais e de governança corporativa sejam antigos, acredito que a novidade hoje é eles estarem ganhando força muito rapidamente.

Por exemplo, o gráfico a seguir mostra a quantidade de vezes em que a sigla ESG foi mencionada por diretores financeiros de 8.000 companhias globais durante as divulgações de resultados para cada trimestre.

Os 30 anos da minha vida profissional foram no mundo das finanças, primeiro como trader de derivativos no mercado de câmbio e depois, nos últimos 20 anos, como empreendedor na NetGO. Em ambos os campos, um dos pontos importantes para ser bem-sucedido foi a identificação antecipada das novas tendências emergentes, bem como a gestão adequada dos riscos inerentes ao setor empresarial.

Além disso, quando o CEO da Blackrock, a maior gestora de ativos do mundo, envia cartas aos CEO das companhias em que há investimentos e aos seus clientes, ele reitera a relevância dos critérios ESG nas políticas de investimento, o que, para mim, confirma que essa mudança chegou para ficar.

 Uma das cartas, destinada aos CEO das empresas em que há investimento, foi intitulada “Uma mudança estrutural nas finanças”, e outra carta, para os clientes, foi intitulada “Sustentabilidade como o novo padrão de investimento da Blackrock”.

Na carta aos CEO, Fink levanta os seguintes questionamentos: “O que acontecerá com as hipotecas de 30 anos — um pilar fundamental das finanças — se os credores não puderem estimar o impacto do risco climático para um horizonte tão longo, e o que acontecerá com as áreas afetadas por enchentes ou incêndios se não houver um mercado de seguros viável para esses eventos? O que acontece com a inflação e, por sua vez, com as taxas de juros, se o valor dos alimentos aumenta devido à seca ou às inundações? Como podemos modelar o crescimento econômico se os mercados emergentes veem sua produtividade cair como resultado das temperaturas extremamente altas e outros impactos climáticos?”. As mudanças que a Blackrock propõe consistem em desinvestir dos veículos que presentarem alto risco associado à sustentabilidade; ele adiciona que serão lançados novos veículos cujo investimento não esteja vinculado aos combustíveis fósseis e coloca como exemplo o carvão térmico, utilizado principalmente pelas usinas termoelétricas.

 “Ao longo do tempo, as companhias e os países que não responderem aos seus stakeholders perante os riscos associados à sustentabilidade, vão se deparar com cada vez mais ceticismo da parte dos mercados e, por sua vez, com um maior custo de capital”.

Por outro lado, os bancos estão considerando os riscos extrafinanceiros que poderiam afetar o perfil de crédito de um mutuário ou de um projeto de financiamento e colocar em perigo o pagamento da dívida contraída, como no caso do risco climático.

Surgiu também a emissão de obrigações com taxas vinculadas ao cumprimento de indicadores de sustentabilidade, como as emitidas pela Enel em 2020.

O fato de a Blackrock, os bancos e a Greta Thunberg estarem na mesma calçada no se que se refere às variáveis ESG é um sinal deve ser considerado. Ele nos indica que estamos observando uma mudança estrutural nas finanças.

É claro que ainda tem caminho pela frente, principalmente na busca de métrica objetiva para o cumprimento dos critérios ESG, mas a evidência é contundente: esse é um assunto que os CFO devem incorporar nas suas agendas.

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